Seus olhos - que eu sei pintar O que os meus olhos cegou – Não tinham luz de brilhar, Era chama de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como facho do Destino. Divino, eterno! - e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tão fatal poder, Que, um só momento que a vi, Queimar toda a alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.
Olhos de Amar
Song Cycle by Sara Claro (b. 1986)
1. Seus Olhos  [sung text not yet checked]
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Seus olhos", appears in Folhas caídas
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2. Não Te Amo  [sung text not yet checked]
Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma. E eu n'alma - tenho a calma, A calma - do jazigo. Ai!, não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida - nem sentida A trago eu já comigo. Ai!, não te amo, não. Ai!, não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo. És bela, e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau feitiço azado Este indigno furor. Mas oh!, não te amo, não. E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror ... Mas amar... não te amo, não.
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Não te amo", appears in Folhas caídas
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3. Destino  [sung text not yet checked]
Quem disse à estrela o caminho Que ela há-de seguir no céu? A fabricar o seu ninho Como é que a ave aprendeu? Quem diz à planta «Florece!» E ao mudo verme que tece Sua mortalha de seda Os fios quem lhos enreda? Ensinou alguém à abelha Que no prado anda a zumbir Se à flor branca ou à vermelha O seu mel há-de ir pedir? Que eras tu meu ser, querida, Teus olhos a minha vida, Teu amor todo o meu bem... Ai!, não mo disse ninguém. Como a abelha corre ao prado, Como no céu gira a estrela, Como a todo o ente o seu fado Por instinto se revela, Eu no teu seio divino . Vim cumprir o meu destino... Vim, que em ti só sei viver, Só por ti posso morrer.
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Destino", appears in Folhas caídas
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5. Olhos Negros  [sung text not yet checked]
Por teus olhos negros, negros, Trago eu negro o coração, De tanto pedir-lhe amores... E eles a dizer que não. E mais não quero outros olhos, Negros, negros como são; Que os azuis dão muita esp'rança Mas fiar-me eu neles, não. Só negros, negros os quero; Que, em lhes chegando a paixão, Se um dia disserem sim... Nunca mais dizem que não.
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Olhos negros", appears in Folhas Caídas e Outros Poemas
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Researcher for this text: Emily Ezust [Administrator]7. Este Inferno De Amar  [sung text not yet checked]
Este inferno de amar - como eu amo! - Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chuva que alenta e consome, Que é a vida - e que a vida destrói - Como é que se veio atear, Quando - ai quando se há-de apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho, talvez... - foi um sonho - Em que paz tão serena a dormi! Oh! Que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim!, despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o Sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz - não o sei: Mas nessa hora a viver comecei...
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Este inferno de amar", appears in Folhas caídas, first published 1853
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Researcher for this text: Emily Ezust [Administrator]8. O Anjo Caído  [sung text not yet checked]
Era um anjo de Deus Que se perdera dos Céus E terra a terra voava. A seta que lhe acertava Partira de arco traidor, Porque as penas que levava Não eram penas de amor. O anjo caiu ferido, E se viu aos pés rendido Do tirano caçador. De asa morta e sem 'splendor O triste, peregrinando Por estes vales de dor, Andou gemendo e chorando. Vi-o eu, o anjo dos Céus, O abandonado de Deus, Vi-o, nessa tropelia Que o mundo chama alegria, Vi-o a taça do prazer Pôr ao lábio que tremia... E só lágrimas beber. Ninguém mais na Terra o via, Era eu só que o conhecia... Eu que já não posso amar! Quem no havia de salvar? Eu, que numa sepultura Me fora vivo enterrar? Loucura! ai, cega loucura! Mas entre os anjos dos Céus Faltava um anjo ao seu Deus; E remi-lo e resgatá-lo Daquela infâmia salvá-lo Só força de amor podia. Quem desse amor há-de amá-lo, Se ninguém o conhecia? Eu só. - E eu morto, eu descrido, Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. Cravei-a eu nessa cruz Minha alma que renascia, Que toda em sua alma pus. E o meu ser se dividia, Porque ela outra alma não tinha, Outra alma senão a minha... Tarde, ai!, tarde o conheci, Porque eu o meu ser perdi, E ele à vida não volveu... Mas da morte que eu morri Também o infeliz morreu.
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "O anjo caído", appears in Folhas caídas
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9. Gozo e Dor  [sung text not yet checked]
Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? - Não. Ai!, não; falta-me a vida, Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso de gozo é dor. Dói-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou, Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou. É que não há ser bastante Para este gozar sem fim Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida - ou a razão.
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- by João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799 - 1854), "Gozo e dor", appears in Folhas caídas
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10. O Poeta Asseteado Por Amor  [sung text not yet checked]
Ó Céus! Que sinto nalma! Que tormento! Que repentino frenesi me anseia! Que veneno a ferver de veia em veia Me gasta a vida, me desfaz o alento! Tal era, doce amada, o meu lamento; Eis que esse deus, que em prantos se recreia, Me diz: — "A que se expõe quem não receia Contemplar Ursulina um só momento! "Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura De seus olhos travessos, e co' um tiro Puni tua sacrílega loucura: De morte, por piedade hoje te firo; Vai pois, vai merecer na sepultura A tua linda ingrata algum suspiro.
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- by Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (1765 - 1805)
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Researcher for this page: Joost van der Linden [Guest Editor]11. Anel  [sung text not yet checked]
Dá-me um anel; mas que seja Como o anel em que cingida Tem gemido toda a minha vida. Dá-me um anel; mas de ferro, Negro, bem negro, da cor Desta minha acerba dor, Deste meu negro desterro! Dá-me um anel; mas de ferro... Sempre comigo hei-de tê-lo; Há-de ser o negro elo, Que me prenda à sepultura. Quero-o negro...seja o estigma, que decifre o escuro enigma, Duma grande desventura. Dá-me um anel; mas de ferro, Que resista mais que os ossos Dum cadáver aos destroços Do roaz verme do pó. Entre as cinzas alvacentas, como espólio das tormentas Apareça o ferro só. E o teu nome impresso nele, Falará dum grande amor, Nutrido em ânsias de dor, Pelo fel da sociedade... Que teu nome nele escrito, Nesse padrão infinito, Vá comigo à Eternidade.
Text Authorship:
- by Camilo Castelo Branco (1825 - 1890), "Anel"
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Researcher for this page: Joost van der Linden [Guest Editor]12. Amor que morre  [sung text not yet checked]
O nosso amor morreu... Quem o diria! Quem o pensára mesmo ao ver-me tonta, Ceguinha de te ver, sem ver a conta Do tempo que passava, que fugia! Bem estava a sentir que êle morria... E outro clarão, ao longe, já desponta ! Um engano que morre... e logo aponta A luz doutra miragem fugidia... Eu bem sei, meu Amor, que p'ra viver São precisos amores, p'ra morrer E são precisos sonhos p'ra partir. Eu bem sei, meu Amor, que era preciso Fazer do amor que parte o claro riso Doutro amor impossivel que há de vir!
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- by Florbela Espanca (1894 - 1930), "Amor que morre", appears in Reliqueæ
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Confirmed with Florbela Espanca, Reliqueæ, Edição de referência: 2 ed, Coimbra : Livraria A. Gonçalves, 1931, p.86
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13. Tortura  [sung text not yet checked]
Tirar dentro do peito a Emoção, A lúcida Verdade, o Sentimento! — E ser, depois de vir do coração, Um punhado de cinza esparso ao vento!... Sonhar um verso de alto pensamento, E puro como um ritmo de oração! — E ser, depois de vir do coração, O pó, o nada, o sonho dum momento!... São assim ocos, rudes, os meus versos: Rimas perdidas, vendavais dispersos, Com que eu iludo os outros, com que minto! Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Text Authorship:
- by Florbela Espanca (1894 - 1930), "Tortura", appears in Livro das Mágoas, first published 1919
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Confirmed with Florbela Espanca, Livro das Mágoas
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14. Minha Culpa  [sung text not yet checked]
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou? Um fôgo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo... um canto de paisagem Ou apenas scenário! Um vae-vem Como a sorte: hoje aqui, depois além! Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem Dum doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!... Sou um verme que um dia quis ser astro... Uma estátua truncada de alabastro... Uma chaga sangrenta do Senhor... Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de maldades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador
Text Authorship:
- by Florbela Espanca (1894 - 1930), "Minha Culpa", appears in Reliqueæ
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Confirmed with Florbela Espanca, Reliqueæ, Edição de referência: 2 ed, Coimbra : Livraria A. Gonçalves, 1931, p.51
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